Você envia um currículo, adapta outro para uma vaga diferente e tenta novamente. As respostas, quando chegam, costumam ser parecidas. Um estudo da Universidade Stanford indica que isso pode não ser mera coincidência.
Depois de analisar milhões de candidaturas, os pesquisadores concluíram que diferentes empresas podem utilizar sistemas de inteligência artificial capazes de repetir os mesmos padrões de aprovação e rejeição.

O que significa “monocultura algorítmica”?
A pesquisa Algorithmic Monocultures in Hiring avaliou cerca de 4 milhões de candidaturas enviadas por mais de 3,4 milhões de pessoas para 156 empresas de 11 setores da economia.
Todas essas organizações utilizavam algoritmos desenvolvidos pelo mesmo fornecedor. Esse detalhe permitiu identificar o fenômeno chamado “monocultura algorítmica”, inspirado na agricultura, onde grandes áreas são ocupadas por uma única cultura.
Quando muitas empresas recorrem a ferramentas semelhantes, cresce a chance de que elas avaliem candidatos usando praticamente a mesma lógica. E isso vale tanto para os acertos quanto para possíveis limitações dos modelos.

Por que tantas rejeições podem se repetir?
Outro achado importante envolve os chamados perfis semelhantes. De acordo com o estudo, candidatos com características parecidas tendem a receber avaliações semelhantes mesmo ao disputar vagas em empresas diferentes.
Os principais resultados mostram que:
- Cerca de 10% dos candidatos que disputam quatro vagas são rejeitados em todas elas.
- Entre os que se candidatam a dez vagas, aproximadamente 4% recebem dez rejeições consecutivas.
- As rejeições ocorrem com uma frequência maior do que seria esperado em decisões independentes.
- Muitos currículos são descartados antes mesmo da análise de um recrutador.
Para verificar se esse comportamento não era apenas fruto do acaso, os pesquisadores compararam os resultados com uma linha de base teórica e estudos anteriores sobre recrutamento sem centralização algorítmica. A análise mostrou que as recusas sucessivas refletem um padrão compartilhado entre diferentes processos seletivos.

Vale a pena continuar enviando currículos?
Segundo as simulações, sim. O estudo indica que aumentar o número de candidaturas ainda melhora as chances de conseguir uma oportunidade, embora esse efeito seja menor quando diferentes empresas utilizam sistemas semelhantes.
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Em um cenário de decisões independentes, cerca de dez candidaturas seriam suficientes para alcançar uma alta probabilidade de receber ao menos uma recomendação positiva. Quando os processos passam por plataformas centralizadas, esse número sobe para aproximadamente 25 candidaturas para atingir uma probabilidade de 99,9%.
Os autores também alertam para outro ponto: a concentração do mercado de tecnologia para recrutamento. Como poucos fornecedores atendem muitas empresas, eventuais limitações ou vieses podem se espalhar rapidamente. Além disso, a baixa transparência dessas plataformas dificulta estudos independentes e torna mais difícil entender como essas ferramentas influenciam o acesso ao emprego. Para muitos candidatos, toda essa etapa acontece sem que eles sequer saibam que um algoritmo analisou primeiro o currículo.
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